Todos os textos
Negócio2026 · JUL · 10 min

O modelo indonésio que a sua produtora pequena pode copiar.

Quatro curtas, oito diretores, cinco países, nenhum grande estúdio por trás — e Cannes no fim. Três decisões estruturais da KawanKawan Media que cabem no orçamento de uma produtora brasileira pequena.

Menina de uniforme escolar apoiada em uma sacada, com prédios do Sudeste Asiático ao fundo// POST.0216:9

Quatro curtas de 15 minutos, oito diretores, cinco países, nenhum grande estúdio por trás. Foi assim que a KawanKawan Media, produtora de Jacarta fundada em 2017 por duas sócias, chegou à Semana da Crítica de Cannes 2026 com "Next Step Studio Indonesia".

O filme em si importa menos do que o caminho até ele: três decisões estruturais que uma produtora pequena brasileira consegue copiar sem inventar orçamento que não tem.

Por que essa história não é sobre o filme

A KawanKawan não é estúdio, não tem escritório em Los Angeles, não tem fundo de investimento por trás. Duas sócias: Yulia Evina Bhara e Amerta Kusuma. Mesmo assim, desde 2019 acumulou uma sequência que qualquer produtora sonha — um hat-trick em Locarno com "The Science of Fictions" (2019), "Whether the Weather Is Fine" (2021) e "Stone Turtle" (2022), prêmio no CPH:DOX com "You and I" (2020), "Autobiography" em Veneza (2022) e o Grande Prêmio da Semana da Crítica de Cannes em 2023 com "Tiger Stripes".

Vale registrar uma ressalva desde já: Bhara hoje também responde pela cooperação internacional na BPI, a agência de cinema apoiada pelo governo indonésio. Isso ajuda a explicar, sem esgotar, o acesso da produtora a financiamento público.

E "Next Step Studio" não é invenção da KawanKawan: é um programa itinerante da própria Semana da Crítica, criado em 2013 pela produtora francesa Dominique Welinski, que já passou por mais de 80 diretores. Este ano é a primeira vez que desembarca na Indonésia, com a KawanKawan como parceira produtora local. Isso muda a leitura do case — a lição não é como inventar um formato de festival, é como se posicionar pra ser a produtora local escolhida quando um formato já validado chega ao seu país.

Elemento 1 — antologia de curtas em vez de aposta única em longa

A decisão mais replicável é a mais simples: em vez de concentrar recursos escassos num único longa, a KawanKawan entrou num formato de antologia. Quatro filmes de 15 minutos, produzidos em paralelo, empacotados como uma peça só.

Isso reduz risco de duas formas que dão pra calcular em planilha. Primeiro, custo e prazo de um curta são fração do de um longa, então o custo do fracasso de qualquer um dos quatro isoladamente é pequeno. Segundo, a chance de pelo menos um dos quatro performar bem em festival é estatisticamente maior do que apostar tudo num longa que pode simplesmente não emplacar.

Pra produtora pequena que vive de emenda de edital em edital, essa é a virada de mentalidade que mais vale copiar: parar de tratar o longa como o único produto que justifica a existência da empresa, e passar a tratar o curta — ou a coleção de curtas — como unidade de produção com valor próprio, não como treino pro longa que viria depois.

Elemento 2 — coprodução com vizinhos, não com quem tem mais dinheiro

Repara na engenharia dos pares: Reza Fahriyansyah (Indonésia) com Ananth Subramaniam (Malásia); Shelby Kho (Indonésia) com Sein Lyan Tun (Mianmar); Reza Rahadian (Indonésia) com Sam Manacsa (Filipinas); Khozy Rizal (Indonésia) com Lam Li Shuen (Singapura). Oito diretores, cinco países, todos do Sudeste Asiático. Nenhum parceiro americano, nenhum europeu.

Coproduzir com um país vizinho de porte de indústria parecido dobra a rede de contatos e as portas de financiamento sem dobrar o orçamento, porque cada diretor chega com o próprio acesso a fundo nacional, distribuidora regional e crítica especializada do seu país.

Não é movimento isolado: em 2022 a KawanKawan já tinha fechado coprodução com a Momo, de Singapura, para "Dreaming & Dying" e "Don't Cry Butterfly". O Next Step Studio é a mesma lógica em escala maior, com quatro parceiros de uma vez. A imprensa especializada estima que, dos cerca de 200 filmes produzidos por ano na Indonésia, apenas de 10 a 15 produtores dominam de fato a mecânica de coprodução internacional. Ser um desses poucos é vantagem competitiva difícil de replicar — não porque exija capital, mas porque exige relacionamento construído filme a filme.

Pro Brasil o paralelo é direto: a produtora que aposta tudo em coproduzir com parceiro americano ou europeu está competindo por atenção de gente que tem dezenas de opções e orçamento de sobra. Coproduzir com uma produtora do Chile, da Colômbia, do Uruguai ou de Portugal — porte parecido, urgência parecida, fundo público parecido — multiplica rede sem multiplicar risco financeiro.

Elemento 3 — dinheiro público e diplomático, não edital único

O financiamento de "Next Step Studio Indonesia" não veio de um estúdio nem de um edital nacional: veio do Governo Provincial de Jacarta, do Ministério da Cultura da Indonésia, da Embaixada da França na Indonésia — que também responde por Timor-Leste e pela relação com a ASEAN — e de um grupo de produtores executivos locais.

Quatro fontes, cada uma com um interesse diferente: a prefeitura quer economia criativa e turismo, o ministério quer exportação cultural, a embaixada quer diplomacia cultural francesa na região. Nenhuma delas precisa cobrir o orçamento inteiro sozinha.

É esse detalhe que a produtora pequena costuma ignorar: embaixadas, institutos culturais e fundos municipais não financiam produção por caridade — financiam porque isso cumpre a agenda deles. Instituto Francês, Goethe-Institut, British Council, secretarias municipais e estaduais de cultura, todos têm linha de fomento à coprodução ou ao intercâmbio, e a maioria fica subutilizada porque a produtora concentra energia inteira em editais nacionais competitivos e trata financiamento diplomático como exceção, não como linha regular de captação.

O contraponto honesto: o duplo papel de Bhara, produtora e ao mesmo tempo responsável por cooperação internacional na agência de cinema do governo, facilita esse acesso de um jeito que uma produtora brasileira sem cargo institucional não consegue da noite pro dia. Mas o mecanismo continua de pé sem essa vantagem — embaixada, instituto cultural e secretaria têm orçamento de fomento com meta de execução todo ano, e a maior parte não recebe projeto suficiente pra gastar. Isso é porta aberta, não exclusividade de quem já está dentro.

Por que copiar a Indonésia faz mais sentido que copiar Hollywood

A tentação é estudar o modelo americano ou o europeu grande — Sundance, A24, festival com fundo estatal robusto — porque é o que mais aparece em matéria de mercado. O problema é que esse modelo pressupõe condições que a produtora pequena brasileira não tem: capital privado de risco disposto a apostar em cinema autoral, agentes e sales houses com relação direta com estúdio, fundo estatal em escala europeia. Copiar isso com orçamento de produtora pequena é o equivalente a rodar a estratégia de mídia de uma marca global com verba de negócio local.

A Indonésia serve de espelho porque a condição de partida é mais próxima: indústria de porte médio, equipe pequena — a KawanKawan opera com um núcleo de duas sócias e uma rede de colaboradores por projeto, não um quadro fixo de dezenas de funcionários —, orçamento limitado e o circuito de festival como canal principal de distribuição.

A diferença entre a KawanKawan e a maioria das produtoras brasileiras não é o tamanho do orçamento. É ter transformado rede, financiamento público diplomático e produção de curtas numa estratégia deliberada e repetida, em vez de recurso usado uma vez e esquecido.

O filme que estreia em Cannes é o resultado. O que vale estudar é o processo: curta em vez de longa como aposta primária, coprodução com vizinho de porte parecido em vez de parceiro grande demais pra te dar atenção, financiamento pulverizado entre fontes públicas e diplomáticas em vez de depender de um único edital. Nenhum dos três exige orçamento que uma produtora brasileira pequena não tenha — exige mapeamento e repetição. Antes do próximo projeto entrar em desenvolvimento, inverta a pergunta de sempre: em vez de "que edital existe pra isso", pergunte "quais embaixadas, institutos culturais e produtoras de porte parecido eu ainda não conheço?". A resposta provavelmente cabe numa tarde de pesquisa.